quarta-feira, 5 de outubro de 2011

DESCONFORTO

Tito Damazo

Ficou entre curioso e surpreso.

Havia a pressa dos clientes a empurrá-lo para as gavetas, os arquivos, o fichário geral. De modo que escanteou, para depois, o envelope circundado de verde e amarelo e entregou-se ao trabalho.

Mãos e olhos na mecânica tarefa de atender os clientes. A cabeça, no entanto, também ia para o canto da escrivaninha, indagando da missiva. Era a resistência da incompreensão. Afinal, jamais estivera em Minas. Parentes seus lá não havia. Nenhum amigo. E a carta acusando nome e endereço corretos.

Deu uma escapadinha e novamente colheu-a da mesa. E novamente buscou no nome remetente uma imagem conhecida. Positivamente, a correspondência não era para ele. Decidira pela devolução.

Intrigava-o, porém, a constatação de que o nome ali sobrescrito, não havia dúvida, era o seu. E a rua, o número, o nome do banco. Como atribuir tudo a uma coincidência? Havia pessoas de nomes iguais, bem o sabia. Ele mesmo conhecia um cliente de nome exatamente igual ao de um seu amigo. E eles nem se conheciam.

Afinal, por que não abrir logo, constatar o equívoco e efetuar a devolução com respeitosas desculpas? Pois tudo dizia ser para ele a correspondência. Se o nome do remetente não lhe parecia familiar de imediato, poderia perfeitamente atribuir ao esquecimento das atribulações. As mudanças, o tempo de ausências. Sim, melhor recorrer ao conteúdo para que tudo ficasse de vez esclarecido.

A forte sensação de que violava uma correspondência, à medida que constatasse nada lhe dizer respeito, impedira-o de ir adiante. Todavia, já havia rasgado a aba sobressalente do envelope. Restava romper tudo de vez. O processo de violação já estava marcado.

Não. Não conseguia ir mais adiante. Isso lhe seria insuportável. Melhor, então, atirar a carta ao cesto de lixo e silenciar. Deixar que real destinatário e remetente acabassem se desentendendo com os Correios. Isso não era incomum. Ficaria, assim, com a consciência menos atormentada.

A vida, o banco, os compromissos múltiplos. A carta incomodativa havia sido, pois, completamente atirada ao lixo do esquecimento. Pegava-o agora, como ao mundo, ao País, uma onda de pavor quase incontrolável. Ações terroristas surdiam de súbito, usando os mais impensáveis meios de extermínio.

Tudo. Os dois mais famosos e sedutores arranha-céus trucidados, cada qual por um Boeing. Súbita bomba arrasando metrô. Fogo em ônibus. Queima de banca de revista. Homem-bomba explodindo em feira. E o que lhe reacendeu o caso da carta: cartas-bomba. O cara, entre curioso e ansioso, mal lê o remetente, abre o invólucro e... tudo se acaba.

Intenso calafrio e descompasso cardíaco só em pensar. Chegara a iniciar a abertura da carta! Ah! salvara-o o sentimento, o respeito à inviolabilidade, a que, agora, se sentia imensamente grato. Por alguns momentos ficou estendido no sofá, feliz, sorrindo aliviado. Sentia-se gratificado.

Assim espreguiçado, a cabeça recapitulando os fatos trouxe a reflexão, cujo avivado sentido imediatamente também o enrubescera de vergonha. Que estúpido! Quem era ele, senão um comum, anônimo bancário, que trabalhava de manhã à noitinha, esforçando-se para ser um funcionário exemplar, não contrariando os superiores e sempre na expectativa de uma promoção... Como então haveria de receber uma carta-bomba?!

O súbito riso incontido não era somente de escárnio. Achava que também de despeito. Um bobo e estúpido despeito de não estar à altura de receber uma carta-bomba.
 

Tito Damazo é doutor em Letras e escritor, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e da AAL (Academia Araçatubense de Letras).

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

PARTICIPAÇÃO NA VII FEIRA DO LIVRO

Conforme anunciado aqui, dois de nossos escritores da UBE, Núcleo Araçatuba e região, participaram nos dias 21 e 22 de setembro da VII Feira do Livro organizada pelo Colégio Nossa Senhora Aparecida de Araçatuba.



No dia 21 o escritor e advogado Jordemo Zaneli Junior, da cidade de Buritama, fez uma noite de autógrafo do seu mais recente livro "A garota rockstar" para o presentes na abertura do evento, tendo sido grandemente prestigiado.



Já no dia 22, foi a vez do escritor Antonio Luceni, que é Coordenador do UBE Núcleo em Araçatuba e região e Diretor de Integração Regional São Paulo/Noroeste. A palestra foi ministrada para um grupo de pais e professores da referida escola, sob o título: "Pais e filhos, leitura e livro: um diálogo possível".

É a UBE, por meio do Núcleo Araçatuba e região, prestigiando e participando dos principais eventos literários de nossa região.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

FEIRA DO LIVRO


VII Feira do Livro do Colégio Nossa Senhora Aparecida – Araçatuba/SP

Araçatuba 21.09.11

Entre os dias 21 e 23 de setembro, ocorrerá nas dependências do Colégio Nossa Senhora Aparecida, no município de Araçatuba/SP, a 7ª Edição da Feira do Livro.

Serão dias de palestras, saraus, lançamento de livros, mesas temáticas, apresentações culturais, oficinas literárias, encontros com escritores e muito mais.

Tradição

O Colégio Nossa Senhora Aparecida é pioneiro na implantação da Feira do Livro no município de Araçatuba, tendo contribuído ao longo destas sete edições do projeto na formação de leitores, estímulo à publicação, além de envolver a comunidade araçatubense com várias ações, entre as quais, abrindo suas portas para visitação de escolas públicas e particulares, autoridades e profissionais do livro, além da própria comunidade educativa.

Nesta 7ª edição do evento vem retomar esse percurso de forma bastante significativa e adequada, já que a presença da leitura em nossa sociedade está cada dia se tornando algo mais corriqueiro, tanto a partir de tecnologias já consagradas, como livros, jornais, revistas etc, quanto com novas tecnologias como e-books, tabletes, computadores etc.

Presença

Entre as várias participações na VII Feira do Livro do Colégio Nossa Senhora Aparecida, gostaríamos de destacar as participações dos escritores:

Jordemo Zaneli Junior, da cidade de Buritama. Advogado e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE, fará noite de autógrafos do seu mais recente livro “A garota rockstar”, Editora Somos, no dia 21/09, quarta-feira, a partir das 20h.

Antonio Luceni, membro e diretor da União Brasileira de Escritores – UBE, com a palestra; “Pais e filhos, leitura e livro: um diálogo possível”, que ocorrerá no dia 22/09, quinta-feira, a partir das 17h30min. A palestra é voltada para o público adulto (pais, professores, estudantes do magistério e interessados em geral).

Todo o evento é gratuito e aberto ao público.

Maiores informações:
http://www.redesagrado.com/cnsa/ ou pelo fone (18) 3609 6609


Colégio Nossa Senhora Aparecida
Praça Monsenhor Victor Ribeiro Mazzei, 184
CEP 16010-430 - Araçatuba – SP


A UBE (UNIÃO BRASILEIRA DE ESCRITORES) É PARCEIRA DE BOAS IDEIAS COMO ESTA!

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Domingo



Antonio Luceni

─ Você vem?

─ Não sei... acho que sim... Vou ver com a Célia primeiro, depois eu te ligo.

─ Tá, jóia. Fico aguardando.

─ Bom dia.

─ Bom dia...

─ Então, tô querendo fazer um churrasquinho, hoje, na hora do almoço. Tá a fim de vir?

─ Peraí...

(Ô nega, tá a fim de ir para um churrasco na casa do Antonio?

─ Vamos, sim. O que precisa levar?

─ Ah, traga só o que vocês vão beber.

─ Oi, posso falar?

─ Fala.

─ É que tô pensando da gente fazer um churrasco agora para o almoço. Você vai viajar?

─ Acho que não. Ao menos até agora ninguém me disse nada.

─ Então, pode ser?

─ Tá. O que precisa levar? 

─ Nada, não. Só a bebida.

─ Mãe? Tudo bem?

─ Tudo bem, filho. E você?

─ Jóia. Então, combinei com os meninos da gente fazer churrasco agora no almoço. Passo aí pra pegar vocês daqui uma meia hora. Tudo bem?

─ Tá jóia. Beijo...

(A vida vai e vem em todos os lugares. Em cada canto, para cada pessoa, em cada família o domingo é diferente. Enquanto alguns estão se levantando tardiamente, com seus olhos ainda embaçados pelas lágrimas noturnas – sim, porque a gente chora quando está dormindo com medo de não acordar –, outros já estão na luta há algum tempo. Enquanto listas de comidas são feitas e filas de supermercados compridas nas manhãs de domingo, outros se quer têm o que colocar na panela.

O domingo para alguns é comer, dormir e sonhar. Para outros, dia normal, dia besta, dia que não acaba nunca pra segunda começar e, diluídos pela rotina e pela mesmice, ao menos se sentirem úteis no mundo com o exercício de um ofício.

O domingo na maioria das casas é Domingão do Faustão, Construindo um sonho com o Gugu e partida de futebol, logo mais à tarde. Se o time vencedor for o meu, vou para o bar beber e comemorar. Caso tenha perdido, vou beber do mesmo jeito para afogar as mágoas.

Mas o pior mesmo do domingo é o final da tarde. Uma melancolia horrorosa, vontade de chorar, pular de precipício, ler matéria de jornal... Aí, cada qual para o seu canto, cheiro de gordura pela casa, sobras de carne assada, um pouco de maionese, mandioca ressequida e refrigerantes chocos na geladeira.)

─ E o pai, não vai por quê?

─ Ah, sei lá! Tô com um negócio ruim no corpo.

─ Esse velho não tem jeito. Não gosta de estar com a família dele.

─ Vamos embora, então, mãe. Deixa esse velho pra lá!

Antonio Luceni é mestre em Letras e escritor, membro e diretor da União Brasileira de Escritores – UBE.

Voam sem asas


   Ana de Almeida dos Santos Zaher

A felicidade existe, mas na maioria das vezes deixamos  ela escorregar feito areia nos vãos dos dedos. Voam sem asas coisas boas e más, e estamos vulneráveis e livres, apesar dos direitos e deveres, há muitos valores que a sociedade coloca em primeiro plano, ainda somos donos de nossas escolhas, em algumas situações o mundo vira contra você e depois se vê obrigado a voltar atrás, porque nem tudo é regra, e existem inúmeros fatores  que perdem o controle das mãos humanas. Exigir perfeição   é algo fora do alcance, mas trabalhar para o bem de todos é um caminho árduo, mas gratificante.

É claro que seria bem melhor amar tudo e todos, mas há quem  afirma que poderia não ter graça se fosse assim.  É impossível  estar de acordo com tudo, mas é possível conviver em paz com as diferenças. Não é mais fácil, porque temos orgulho e muitas vezes não valorizamos as coisas e pessoas que estão por perto sempre.

Voam sem asas o amor e ódio, e o universo traz e mostra que ser livre só não basta,  a inteligência para definir bem seu  próprio  caminho é fundamental.

O medo de abraçar e acolher a semente do bem,  faz defasar a colheita. Para muitos é mais fácil acomodar-se e resmungar  a vida toda, do que encarar e tentar.

Sei que é fácil pedir coragem aos outros, eu não peço, e nem digo que temer é errado. Acredito que o certo é dosar os sentimentos, e adquirir equilíbrio.

Vale a pena se esforçar e tornar seu sonho realidade, mais do que querer, tem que lutar, e não desanimar na primeira queda.

Tudo  serve de aprendizado, o que não deve ocorrer é perder as oportunidades, o ânimo, e a vontade de chegar, mesmo que não seja ou aconteça exatamente do jeito que planejou, e o que importa é sentir-se feliz e satisfeito.

Na maioria dos casos, as pessoas se decepcionam  com o rumo que suas vidas tomaram, e nem sempre admitem e aceitam um recomeço. Não entendem que temos o direito de mudar de opinião e a rota. 

Voam sem asas, a natureza, os homens, todo o planeta,  misturados filhos e agregados em busca do mesmo objetivo. A realização de seus anseios, cada um com sua particularidade.

Seguem  sua viagem, voando sem  asas e sem data marcada, em uma velocidade não controlada, porque cada piloto conduz sua nave. Dentro de o tempo não determinado.

É  evidente, o percurso é o mesmo, os sonhos e desejos são incontáveis, mas cada um é responsável  pelo que quer e o que almeja.

Voam sem asas, uns inocentes, outros com muita cede, e o mais importante,  dentro do contexto  todos vão  conquistando seus méritos.

Ana Almeida dos Santos Zaher é escritora, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

Literatura Jeca


Hélio Consolaro

Muitos afirmam que apenas uma literatura existe, a boa literatura. Com tal afirmação, rompem-se fronteiras, anula a existência da literatura regional, não se faz diferença entre faixas etárias de leitores. Para quem pensa assim, não há literatura infanto-juvenil. A criança pode começar por Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Com tal introdução, pretendemos chegar à literatura interiorana, Jeca, principalmente do Estado de São Paulo. Como nosso estado é o mais cosmopolita da federação, não criamos o mecanismo de defesa cultural. Aliás, sempre desprezamos nosso rico caipirismo: “coisa de Jeca Tatu”.   

Os paulistas visitam Ouro Preto, por exemplo, berço da Independência do Brasil, mas ignoram Itu, onde foi articulada a República. Admiramos as manifestações folclóricas mineiras e nordestinas, não prestigiamos as nossas.

O Governo do Estado de São Paulo, 2004, publicou resultado de pesquisa do projeto desenvolvido pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária sob o título de “Terra Paulista: histórias, arte, costumes”. Essa mesma obra foi editada para jovens em 10 volumes e todas as escolas estaduais receberam a coleção. Dentre os volumes, há um intitulado “A Literatura do Interior”, do professor Jorge Miguel Marinho.

“Estudar a produção literária do interior paulista significa, em certa medida, examinar aspectos do difícil relacionamento entre o campo e a cidade. Isso porque tudo o que se legitimou como arte letrada, desde a contribuição dos poetas românticos, em meados século 19, até dos integrantes da Semana de Arte Moderna de 1922, passou pelo crivo da capital, sob o olhar desconfiado da crítica e da história literária. A literatura do interior paulista submeteu-se permanentemente a essa desconfiança quando citada, pois o mais comum foi o silêncio como registro da sua condenação” (prefácio do volume).

A literatura do interior paulista passa quase despercebida pela “História concisa da literatura brasileira”, do professor Alfredo Boi. O professor Antônio Cândido, crítico literário,  afirmou que “caipira” é “um modo de ser, um tipo de vida, nunca um tipo racial”. Para o antropólogo Carlos Rodrigues Brandão, quem constrói a imagem do caboclo, estereotipada, é “uma gente letrada e urbana”.

No começo do século 19, em seus relatos de viagem pela província de São Paulo, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire apresenta uma visão depreciativa do matuto: “Essa gente embrutecida pela ignorância, pela ociosidade, pelo isolamento em que se acha de seus semelhantes e provavelmente pelo gozo de prazeres prematuros, não pensa em nada, apenas vegeta como as árvores”. Esse desdém ao homem do campo paulista se manifestou bem antes de Monteiro Lobato, quando criou o personagem Jeca: raquítico, preguiçoso.

Observando o nosso lado, a literatura local e regional ora insiste em conceber o matuto como um ser arcaico, supersticioso, de gestos e costumes grosseiros, ora confere o caboclo uma inteligência “escavada da terra”.

Nós, escritores do interior, precisamos avivar essa discussão, porque ela é nossa. Não devemos nos sentir “vira-latas” diante de escritores de capital. Nosso sistema literário (escritor +leitor +editora) existe. Essa literatura marginalizada faz parte da cultura caipira... Como escreveu Gabriel Zaid, intelectual mexicano, que a literatura maior de cada país se constrói com os livros de pequenas tiragens, não apenas de best-sellers. 

Como caipira letrado hoje tem internet, o isolamento causado pela regionalização está por ruir. Agora precisamos delimitar ainda mais as fronteiras para que a cultura global não destrua a local, inclusive a nossa literatura Jeca.

Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Membro da União Brasileira de Escritores.

Galinhagem


Tito Damazo

            O poleiro ganhou imagem de palanque. A galinha gorda abriu as asas pedindo ordem e silêncio. Que parassem aqueles cacarejos. Sejamos democráticas. A imposição é arma dos fracos.
        Declarou estarem abertas as conversações. Pois bem, minhas amigas de ninho (na verdade, há muito não participava do sistema de produção). Embora desconfiadas daquela inédita e súbita concessão, as poedeiras decidiram apresentar suas reivindicações. Depois de algum tempo de rumorejos diversos, uma delas recebera a incumbência de relatar o conjunto de problemas e dificuldades sentidos bem como apontar as soluções não só desejáveis como necessárias.
            -- Senhora capataz. As poedeiras desta granja têm discutido longa e exaustivamente que não é mais possível continuar suportando as crônicas adversidades vividas. A vida confinada neste recinto é uma afronta à nossa dignidade. Isto é uma prisão não a quem deve, mas a quem trabalha honesta e devidamente. É notório e inegável que, além disso, nenhum espaço temos fora do ninho a que se acoplam comedouro e bebedouro. Mal respiramos. A noite, bem imprescindível para nossa condição de ave, nos é negada. Somos torturadas por essa iluminação que nos atordoa, nos causa insônia, que nos estressa. Cabe-nos tão somente pôr ovos, pôr ovos, pôr ovos! Nossos mínimos direitos são completamente coibidos. Não nos permitem nenhum tipo de pastagem. Hábito praticamente congênito da espécie. A história evidencia nossos antepassados como galináceos livres pelos quintais, pastos e até mesmo matos. Nossas coirmãs ditas caipiras continuam podendo exercer esse direito. Caçam o alimento complementar ao milho matinal e da tardinha, quando depois vão para o galinheiro curtir o justo sono que a noite lhes concede. Também elas continuam tendo o direito ao ritual do sexo em que os galos perseguem-nas incansavelmente até possuí-las. O direito de chocar, ter seus pintinhos, amorosamente acolhê-los e agasalhá-los como mães extremosas e furiosas com quem se atrever incomodá-los.
            Finda a exposição da líder, a galinha gorda, durante algum tempo, ficou bicorando o corpo penado. Ao mesmo tempo mirava a postura e reação daquelas galinhas que esperavam agora sua manifestação. Por fim, disse-lhes que aquelas verdades eram impossíveis de se conseguir, pois elas tocavam as razões do senhor daquilo tudo. Conviria repensarem. Afinal, apesar de tudo, tinham do bom e do melhor. Eram muitíssimo bem tratadas. Tinham como único afazer pôr seus ovos. Aliás, algo próprio da sua condição de ser, o que naturalmente faziam, sem despender grandes esforços.
            -- Não botaremos!
            -- Leve tudo, sem tirar nem pôr ao senhor granjeiro!
            -- Mas vocês estão radicalizando. Insisto: botar os ovos é uma imposição da nossa natureza. Independe de nosso desejo. O senhor granjeiro sabe muito bem disto.
            -- Quebraremos tudo! Daqui não sai um ovo vivo. A menos que...
            -- Recebamos licença para a maternidade.
            -- Para a sexualidade.
            -- Direito de liberdade!
            -- Abaixo o arbítrio!
            -- Psiu. Vocês estão se excedendo, olhem o corte, ponderou a gorda galinha.
            Essa observação arrefeceu por algum tempo os ânimos. Mas depois, os rumorejos de indignação se restabeleceram:
            -- Somos inflexíveis.
            A gorda galinha resolveu que então daria andamento às determinações das colegas. Que não a acusassem depois de culpada pelo que pudesse acontecer.
            Na manhã seguinte, o granjeiro ordenou a um garoto que levasse a galinha gorda de presente para a irmã recém adoecida. Uma boa e substanciosa canja de galinha seria benéfica ao restabelecimento de sua saúde.

Tito Damazo é doutor em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE e da Academia Araçatubense de Letras – AAL.

Tantas mulheres


Marilurdes Martins Campezi
                                                  
Que ânsia essa no coração de Teresa? Quem é a mulher que ali habita? Ela se percebe como muitas e, ao mesmo tempo, única!

Teresa busca dentro de si a definição do ser, o sentido de sua alma feminina, mas não encontra resposta satisfatória. Encontra personagens que se destacam durante sua caminhada: a mãe em desvelo, a esposa prestativa, a profissional responsável, a amiga presente, a católica praticante, a... E não se realiza. Sente-se uma mulher indefinida entre as outras mulheres que convivem no mais profundo de si.

Deixa de lado o crochê que tece para a blusa da filha. Vai até a cozinha, destampa as panelas, verifica o sabor do cozido na palma da mão. O dia promete ser angustiante. Seu pequeno corpo parece não suportar todas as mulheres que ele tenta proteger. Ela tem a impressão de que todas desejam escapar dali, ganhar mundo, cada qual rumo ao seu destino. Teresa diz para si mesma que, se isso fosse possível, não haveria lugar para tantas teresas.

Essa idéia sobre seu plural há muito lhe domina o pensamento. Mas o pior acontece agora, quando não consegue mantê-las em silêncio, inertes na convivência pacífica de todos os dias: a profissional cultiva um sentimento de culpa diante da mãe ausente; a amante frustra-se pelo desejo extinto da esposa; a religiosa escandaliza-se diante da razão, pondo a fé em xeque; a boazinha sente remorso pela hipocrisia com que ouve os queixumes das amigas. A pluralidade vive dentro dela, antônimos apalermados pela insensatez daquela alma feminina. Quando nascera, pensa ela, por certo alguém exclamou:” é uma menina!”, selando para sempre um destino que nada teve de singular.  

Teresa levanta-se do sofá, onde voltara a se sentar, livra-se da novela e do novelo. Atravessa sala e corredor, fechando-se em seu quarto, tentando aprisionar nele todas aquelas mulheres que parecem aguardar o momento da fuga de uma prisão tão minúscula.

“Quando será tal momento?” pergunta-se. E fixa o olhar no portarretratos que mostra sua foto aos vinte anos. Coloca-se, então, de frente para o grande espelho na parede. Ouve o silêncio. Ninguém mais em casa, só ela... só elas...só. Chega-se aos poucos, como se tivesse medo, ao vidro que a reflete, tocando nele a sua cara, fixando olhos nos olhos, deixando-os se encontrarem lá no fundo. O que vê a espanta: no poço escuro, todas as teresas estão de braços estendidos, como a pedirem socorro para saírem daquela clausura. Em vez disso, Teresa joga-se, mergulha, precisa chegar lá onde estão todas as outras e conhecê-las, uma a uma, abraçá-las, perguntar-lhes por que tanta separação. E as teresas rodopiam a sua volta, intocáveis, sem permitirem o abraço, até que se fundem numa só Teresa, espantada, trêmula. O corpo está lasso, mas heroicamente contém a fuga de todas as mulheres que ali se abrigam.

      -    Quem é essa Teresa?
A mulher que conseguira penetrar seu próprio mundo ouve a pergunta e, aos poucos reconhece a voz de seu analista.
-          Nunca vou saber, responde, mas estou certa de que minha alma de mulher é tão vasta e perfeita que nela posso abrigar todas as mulheres do mundo.
-          Está bem Teresa. Pode abrir os olhos. A sessão já terminou. Está de alta.

Marilurdes Martins Campezi é escritora, membro da União Brasileira de Escritores e da Academia Araçatubense de Letras.

Letra de música

Hélio Consolaro*

Tem 17 anos e fugiu de casa / Às 7 horas da manhã no dia errado / Levou na bolsa umas / mentiras pra contar / Deixou pra trás os pais e namorado / Um passo sem pensar// Um outro dia, um outro lugar/ Pelo caminho, garrafas e cigarros/ Se amanhã por diversão/ Roubava carros/ Era Ana Paula, agora é Natasha/ Usa salto 15 e saia de borracha / Um passo sem pensar / Um outro dia, um outro lugar// O mundo vai acabar/ E ela só quer dançar/ O mundo vai acabar/ E ela só quer dançar, dançar, dançar/ Pneus de carro cantam Tchuru, tchuru, tchuru/ Tchururu...// Tem 7 vidas, mas ninguém sabe de nada/ Carteira falsa com identidade adulterada/ O vento sopra enquanto ela morde/ Desaparece antes que alguém acorde/ Um passo sem pensar// Um outro dia, um outro lugar/ Cabelo verde, tatuagem no pescoço/ Um rosto novo, um corpo feito pro pecado/ A vida é bela, o paraíso é um comprimido/Qualquer balaco ilegal ou proibido.( Natasha, Capital Inicial)

/ - divisão de verso - // - divisão de estrofe

O material da Aula de Redação da apostila, ensino médio, só trazia letras da MPB, mas bem antigas. Para alguns intelectuais, a Música Popular Brasileira parou em Caetano, Gil e Chico Buarque. Não consideram Adriana Calcanhoto, Marisa Monte, Zeca Baleiro e muitos outros valores.

Os alunos me questionaram:

- Professor, vamos estudar letras de músicas mais atuais!

Aceitei o desafio. E devolvi à classe a palavra:

- Sugiram a música. Qual?

E chegaram a uma sugestão:

- Natasha, Capital Inicial.

Alguém se prontificou em trazer o CD, eu preparei o estudo durante a semana.

O poema conta a narrativa de uma menina classe média que fugiu de casa, caiu no mundo, enveredou-se para o mundo marginal. A letra julga a atitude da menina, 17 anos, pois estava muito cedo para tal aventura: “Às 7 horas da manhã no dia errado”. E dá uma lição de moral, repetida: “Um passo sem pensar”. Talvez seja o exercício da autocensura do compositor.

A letra também entende a adolescente, pois o refrão repete a visão epicurista da vida: Ana Paula, que adotara o pseudônimo de Natasha, queria apenas viver: o mundo vai acabar mesmo, então, ela só quer dançar.

Há na letra uma metáfora com um clichê: morde e assopra. O vento soprou a favor dela, lhe dando uma família constituída e era amada: tinha “Pai” e “namorado”. Essas duas figuras formam uma metonímia do padrão de vida da garota, mas ela “mordia”, dando sopa para o azar. Vivia o perigo. Desafiava o destino.

Aliás, podemos dizer que toda a letra é construída de metonímias. O poeta vai fornecendo índices de mergulho cada vez mais profundo de Ana Paula no mundo do crime, se tornando cada vez mais Natasha: garrafas, cigarros, roubava carros, identidade adulterada, tatuagem no pescoço, corpo feito pro pecado, o paraíso é um comprimido, balaco ilegal.

Fiz várias perguntas para que os alunos descobrissem a riqueza da letra, como foi bem construída. A letra também sugeriu várias discussões extraliterárias.

A conclusão do estudo foi o espanto de uma aluna:

- Professor, eu adoro essa música, mas eu não sabia que ela trazia essa mensagem tão bonita, fosse tão bem escrita, fazendo inveja a bons escritores. Eu cantava, curtia a música, mas não entendia ela muito bem.

A letra, se bem construída, tão fácil na leitura rasa, resiste a uma leitura mais profunda, escarafunchada. Os alunos aprenderam que precisavam prestar mais atenção nas letras das músicas que ouviam e cantavam, não podiam fazer apenas uma leitura rápida e intuitiva.

*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Membro da União Brasileira de Escritores.

O portão


Ana de Almeida dos Santos Zaher



Portão aberto ou fechado. Um sinal nítido, uma lembrança viva e permanente que nos traz muitas saudades. Deixando claro que não temos mais liberdade.

E não adianta negar, fugir, a realidade está diante de todos, não tem como deixar de ver. Nem mesmo se fecharmos os olhos.

Há muito tempo atrás, não precisavam de cercas, muros. Portanto não havia necessidade de portão. Hoje ele é bastante útil, mas não significa que temos privacidade.

Adquirimos o hábito de agarrar neste objeto como amuleto da sorte, cheios de correntes e cadeados.

Nós nos enganamos, como se fosse o pirulito das crianças ou a chupeta, que acalma e engana. Fazendo a gente dormir, tranqüilos, e em paz.

Assim adormecemos, deixando também adormecidas a certeza que não temos mais segurança.

E cada vez mais, vamos colocando acessórios no nosso próprio pescoço, algemas nas mãos e uma carranca no rosto, demonstrado ares de poucos amigos.

Mas, já temos muitos exemplos de pessoas boas, que não são poupadas da maldade, imaginam as consideradas intragáveis.

Apesar de saber que a esperança é mesmo a última que morre, infelizmente dói, conferir que existe mesmo caminho sem volta.

Nem mesmo eu que sempre espero uma luz no fim do túnel. Mesmo a consciência tentando ser forte. Não tem um esconderijo.

Tento me livrar dos pesadelos, mas vivo em busca de respostas, ainda me lembro da minha infância livre.

Não vivo sob tortura, mas rio e choro só, as lembranças ainda vivem; das brincadeiras de bola, queimadas, pega- pega e bandeirinhas.

A mente não consegue desfazer as imagens únicas e intransferíveis. É inevitável não se perguntar, quem ou como começou as prisões.

Foi tudo muito rápido, e nos dias atuais, sinto muita pena das crianças, que mal chegam ao mundo. A coleira é sua primeira visita.

Choram se debatem até que suas forças cessam. Longo vão ter ciência que o caminho é longo. Por mais que corra não tem como escapar.

Portões imensos, cercas elétricas, arames farpados, muros altíssimos.

Observando a correria das pessoas, da minha janela vi, inúmeros corações sofridos, fechados de tal maneira que eu podia sentir as faíscas, o curto circuito.

Os animais estressados como os donos. Ás árvores sendo arrancadas para facilitar a visão, no caso da aproximação de estranhos na propriedade.

Também vi uma menina que deveria ter uns cinco anos, atravessar a rua sozinha e o carro se aproximava. Arrepiada, desesperada, não tinha o que pensar. Gritar não ia resolver, tive sorte.

Na minha casa não tinha portão corri e graças a Deus, deu tempo.

E o melhor; salvei duas vidas...

Ana de Almeida dos Santos Zaher é escritora, membro da União Brasileira de Escritores - UBE.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

ÚNICO *


A admiração, capacidade que nos enche de encantos, é acompanhante das impressões que a razão provoca em nós. Pena que ao longo do tempo o que é natural se veja coberto pela sensação de normalidade e perca a aura da singularidade.
Aquilo em que custamos crer, o fantástico, fantasticamente permanecerá inexplicável e atraente. Se tardamos a descobrir fantasia no trivial, é essa a arte do verdadeiro escritor.
O mistério pode e deve estar no palpável, tátil, crível, no aspirável como inspirável, no habitual: na literatura como na família.
            Família e literatura têm em comum servir de suporte às humanidades, e ambos têm tudo a ver com escolhas pessoais e desfecho. Cada trilha num livro, como os caminhos na vida, conduz a um determinado final. E, por essa semelhança, vivemos do aguardar desfechos, desejando-os sempre melhores.
Nos enredos das letras de toda arte, como em cada vida, nem sempre o final será o que gostaríamos. Isso acontece porque ali colocamos expectativas pessoais, numa visão diminuta de mundo. Se ampliarmos o foco veremos que o bom final é próprio do universo. Assim como determinada literatura, mesmo no amargo desfecho, traz anseios e certezas de construção positiva, porque não se trata do indivíduo, mas do todo.
Todos nós temos história. Se para muitos basta a alegria de vivê-las, para outros há que contá-las por escrito. São tantos os livros com histórias familiares que o tema por si daria uma bela análise de doutorado: o modo como a edição se apresenta por vontade do autor, razões de publicação, a linguagem ali privilegiada na tentativa do formal, ou do informal.
É evidente que, por mais razões pessoais que justifiquem qualquer edição, escrever um livro brota do tradicional: é tentativa de imortalizar-se. É como ter um filho, ou plantar uma árvore (nem falemos de Araçatuba, cidade esquecida das razões da clorofila e do oxigênio, isso é assunto para tratado político).
Se nem todos querem plantar árvores, e as boas gráficas hoje têm projetos de sustentabilidade na área, que bom que as possibilidades de impressão se popularizaram.
Falemos dos araçatubenses: Maria Luisa de Paiva Afonso era poetisa. Seus sonetos, imprecisos na métrica e certeiros nos bons sentimentos, contam histórias e emoções familiares que poderiam pertencer a muitos. A autora de “Ecos de minh’alma” foi mulher vibrante, apaixonada e caridosa que retratou-se em poemas como nas cartas amigas, imprimindo-se nas saudades deixadas.
Publicações familiares andam há tempos nas lides e predileção de munícipes. O cidadão daqui é recente, a cidade tem apenas cem anos. Porém, o que aqui se vive veio de longe, e como toda história basta buscar.
Então em “Histórias de família”, o engenheiro, filho de Maria Luisa, como ela não contagiado pelo ‘fiz, portanto sou’, veio surpreender. A publicação despretensiosa e merecedora de menção e leitura, descreve situações de formação de Brasil na vinda e permanência de antepassados e suas “Bandeiras” particulares.
Os desbravamentos e os transformares de ascendências em brasilidades assumidas, veio pelas mãos de Adriano. Pesquisando a origem dos próprios sobrenomes, ele apresenta as famílias Silva, Paiva, Alves Lima e Affonso de Almeida que mesmo, em capítulos assim separados, sob o arrimo de uma intenção genealógica, se leem de um fôlego.  
Paiva Afonso, o autor, deixa para as próximas gerações um livro que celebra, por sua ascendência, muito dessa história de Brasil que desaguou no Tietê do noroeste paulista.
Por que é tão interessante? Difícil precisar. De toda forma “Histórias de Família” é um agradável legado, que com seus muitos desfechos de conjunto demonstra o quanto somos únicos.

*Cecilia Ferreira




terça-feira, 12 de julho de 2011

ESCADAS

Ana de Almeida Santos Zaher*



Desde quando nascemos, a regra já existe, e querendo ou não, nós a seguiremos, não tem outra saída, não tem atalhos.

Terá sim uma montanha, na qual encontrará muitas escadas com vários degraus para você escolher, consciente que subira com cautela e caminhando.

Alguns na ânsia de chegar, se atrevem a correr. Mas existem coisas e fatos que realmente tem seu tempo. Como as flores, os frutos... E como nós humanos, que demora nove meses para nascer. E quando algo acontece antecipando o nascimento, choca a natureza.

Na vida, iniciando os nossos primeiros passos, a escalada sem rumo já começou. E assim seguimos de acordo, no caminho que nos foi mostrado.

Mas nada é eterno, não podemos mudar de vida, mas insatisfeitos sempre damos um jeitinho, e mudamos o percurso.

Chega-se o tempo do discernimento, nos sentimos presos e acorrentados, cresce o ego... E voamos em busca da liberdade.

Nos altos e baixos que acompanha a caminhada, não se pode pisar em falso, não há proteção.

Todos os atos e ações são registrados, em muitas mentes serão guardados, só serão extintos com a morte. Assim mesmo corremos o risco dos arquivos virem á tona, de alguma maneira.

Como as escadas, vamos nos deparar com degraus de tamanhos e espessuras diferentes. Subindo ou descendo o morro. A concentração será fundamental para chegar ao topo, sem algum aranhão.

Tarefa destinada a cada um, quase impossível, não há vitória sem luta, e não tem sabor chegar ileso, e não ter provado tudo. A questão é não fugir dos espinhos, e sim encontrar uma forma de passar por eles, com poucos ferimentos.

Diante das circunstâncias, viver é um risco e ser feliz é bom demais.

O medo de passar embaixo de escadas ainda existe e em grande número.

E olha que a queda não causaria muitos danos.

Observando o mundo que não para de girar. Vejo com muito pesar, que as pessoas se cansam com muita facilidade, desistem cedo.

A vida é cheia de surpresas, e alguns seres acabam seus dias, lamentando... Arrependidos por não ter tido a coragem necessária de pegar seu prêmio.

Não precisa ser um gênio, nem ter uma bola de cristal. Basta ser corajoso e tentar.

Sempre acreditar que obstáculos no alto ou embaixo vão existir em todos os momentos.

Agora, decisão que cabe aos interessados, ultrapassar, chegar ao último degrau e abrir as cortinas... E conferir que o que é seu, estava guardado e só seria entregue em suas mãos.

A liberdade escondida na caverna, como as rosas cercadas por espinhos.

Percebo que podemos mudar o pensamento, não deixar de ter medo, mas buscar o equilíbrio. Para não perdemos a beleza , o tesouro, a glória.

Que esta distante, mas ao nosso alcance.





Ana de Almeida Santos Zaher é escritora e membro da UBE (União Brasileira de Escritores)

domingo, 10 de julho de 2011

Entrevista de Menalton Braff a EPTV - Ribeirão Preto

Entrevista programa Entrelinhas com nosso Diretor de Integração Nacional - Menalton Braff

No calor da hora

Hélio  Consolaro

Ontem, de manhã, assisti a uma conferência, ao vivo, presencialmente, denominada “No calor da hora”, que discutiu as revistas literárias. Elas trabalham com o momento, não possuem uma perspectiva do tempo para avaliar o seu fazer.

Estranho é que vieram dois editores de revistas estrangeiras, porque o mercado editorial brasileiro está comprando selos estrangeiros, e a revista “Granta” será o selo para inserir os escritores novos no mercado pela editora Objetiva.  John Freeman foi o representante dessa revista na mesa, discursou em inglês, com tradução simultânea.



O mexicano Enrique Krauze, editor da revista “Letras Libres” discursou em espanhol, com tradução simultânea (quase desnecessária para o público brasileiro). O seu tema foi a América Latina, Otávio Paz, o marxismo.



Disse que Lula é um líder institucional, não é como Chavez  e Fidel cujas  biografias se confundem com a história  de seu  país, caudilhos. Também afirmou que o marxismo ainda encanta a intelectualidade da América hispânica.

Hélio Consolaro é jornalista e escritor, membro da UBE, Núcleo Araçatuba e região.

sábado, 9 de julho de 2011

Nem tudo são livros na Flip

Hélio Consolaro

Participar da Flip é uma aventura, mesmo antes de chegar a Paraty. O primeiro desafio é comprar ingressos para  as palestras via internet. Muitas conferências tiveram a venda esgotada no primeiro dia, 6 de junho.

Caso não consiga assistir ingresso para assistir presencialmente a conferência, vende-se ingresso a R$ 6,00 para assistir pelo telão, numa grande tenda. Aqui tudo é provisório, realizado  em tendas. Esses ingressos também são vendidos pela internet e se esgotaram rapidamente. 

Estranho mesmo  é esgotar a venda de ingressos pela internet para determinado evento, mas abre-se a oferta novamente aqui. Não sei se é erro de organização ou apenas parte dos ingressos são disponibilizados pela rede de computadores.

Além da programação oficial, há as paralelas. Na  sexta-feira, 8/7/2011, 11h, a Casa Folha (uma  casa onde o jornal Folha de São Paulo) promove encontro de leitores com seus colaboradores, como: Laerte, Ferreira Gullar, Xico de Sá, Contardo Calligaris, Fernando Rodrigues. Houve na quinta-feira, 7/7, um debate sobre Literatura e jornalismo cultural.

O MALA

Parte da turma foi ouvir o poeta Ferreira Gullar. A Casa Folha é um lugar em que cabem 50 pessoas, havia 200. Gente pisando em gente. Atrasou por 30 minutos.

Contou toda a sua história. Ser sobrevivente da ditadura militar dá ibope, então, lá vai conversa. Na verdade,  eu estava lá porque meu amigo Tito Damazo queria entregar ao Ferreira Gullar o livro que escreveu sobre o poeta, um trabalho acadêmico. E também gostaria de pegar um autógrafo num volume da 5.ª edição do Poema Sujo, editado pela Civilização Brasileira.

Ferreira Gullar já tinha recebido a dissertação há algum tempo, mas não em forma de livro. O sonho era dizer:
- Está aqui, mestre, um livro que fala sobre você!

Como eu e o Tito nos hospedamos no mesmo quarto, percebi que aquele momento seria apoteótico, como um estudante juvenil, se preparou para o momento. Tenho comigo que conhecer o ídolo de perto é um desastre, porque quase sempre ele não é aquilo que imaginamos. E o aforismo foi comprovado.

Ferreira Gullar, na verdade, é um porra-louca que deu certo. Aliás, nós, artistas, somos todos assim, mas há gente que vence pela idade. Outros viram mito porque morreram cedo. Ele está um mala e, atualmente, tem idéias de jerico e faz questão  de expressá-las.       

Então, caro leitor, o Tito, com aquela timidez que lhe é peculiar, não avançou, não atropelou ninguém. Deixou para entregar educadamente o livro no fim da palestra. E eu com a câmera digital para registrar o momento.

Não entregou, porque não ficou no final para  a rodinha de conversa com os admiradores, deu as costas, foi embora, assessorado por um jornalista da Folha. Parou na travessia da rua para dar entrevista a um canal de televisão, mas renegou o contato pessoal. Deixou meu amigo Tito Damazo falando sozinho.

Quantas noites maldormidas, quanta pesquisa sobre o poeta para receber aquele tratamento. Tito Damazo ainda quis justificar tal atitude, dizendo que o poeta é um octogenário, etc. mas não me convenceu. Ferreira Gullar está  firmão, inteiro. 

Nada foi  feito de propósito, mas todo escritor  deve cultivar  seus leitores e admiradores, não tem o  direito de ser mala.
Nem tudo  na Flip são  livros. Há muito dinheiro rolando e egos inflados em demasia.






Hélio Consolaro é jornalista e escritor, membro da UBE, Núcleo Araçatuba e região.

Dois palmeirenses em papo sério

Hélio Consolaro


Assisti ontem a uma conferência muito boa, a relação da religião com a ciência, e vice-versa. Parece um tema ultrapassado neste século 21, porém, muito pertinente aos avanços da neurociência, campo de pesquisa de Miguel Nicolelis. 

O outro palmeirense era Luís Felipe Pondé que abordou o tema  "o humano além do humano". Pelo  menos os dois tinham um ponto em comum, desde o início da conferência, torcem pelo Palmeiras. Como palmeirense, fiquei orgulhoso disso. Percebi que na tribo verde há gente muito inteligente. Nicolelis, candidato forte ao prêmio Nobel, disse que troca esse grandioso prêmio pelo  hexa da Copa do  Mundo.

Como  descendente de italiano, mostrou que é um tremendo gozador, deve ser a atração de qualquer roda de conversa. Ficou muito emocionado, quando disse que seu sonho é sua pesquisa poder proporcionar a uma criança brasileira, tetraplégica, a dar o chute inicial na Copa de 2014.  Biografia de  Miguel Nicolelis

Miguel Nicolelis nasceu em São Paulo, em 1961. É médico neurocientista, professor titular de neurobiologia e engenharia biomédica e codiretor do Centro de Neuroengenharia da Duke University. Seu trabalho com próteses neurais integra a lista das “10 tecnologias que vão mudar o mundo”, segundo o MIT (Massachusetts Institute of Technology). Foi considerado pela revista Scientific American um dos vinte maiores cientistas do mundo no começo da década passada. Nicolelis também concebeu e lidera o projeto do Instituto Internacional de Neurociências de Natal, na capital do Rio Grande do Norte.

Biografia de Luís Felipe Pondé

 
Luiz Felipe Pondé é filósofo, doutor pela Universidade de São Paulo e Université de Paris VIII e professor do Programa de Estudos Pós-graduados em Ciências da Religião da PUC-SP.

Santos Dumont e o exoesqueleto


A voz do neurocientista Miguel Nicolelis ficou embargada no final de sua apresentação nesta Flip 2011, quando anunciou que o primeiro exoesqueleto robótico será usado pela primeira vez no país do futebol, no jogo de abertura da Copa de 2014, por uma criança brasileira tetraplégica, que vai dar o pontapé inicial da partida. Essa prótese de corpo inteiro, capaz de obedecer comandos enviados diretamente pelo cérebro de um primata, está em desenvolvimento pelo consórcio do projeto Walk Again (volte a andar), que envolve universidades e centros de pesquisa do mundo inteiro sob a supervisão do Centro de Neuroengenharia da Universidade Duke, nos Estados Unidos, que é dirigido por Nicolelis.  Também integra o consórcio o Instituto Internacional de Neurociências de Natal (IINN), outra ideia de Nicolelis que vingou.



No fundo, o brasileiro parece com seu herói, Santos Dumont, que prometeu voar – e voou. “O sonho em Natal é que os voos de muitos Santos Dumont sejam feitos por aqui, sob a luz do Cruzeiro do Sul”, disse Nicolelis, que acaba de lançar no Brasil o livroMuito além do nosso eu. Nele, explica para leigos, sem perder em profundidade, a pesquisa e o desenvolvimento de interfaces homem-máquina como o exoesqueleto em questão. Na noite desta quinta-feira (7), na Tenda dos Autores, ele foi além: mostrou a imagem de um pensamento primata (fotografia do movimento dos neurônios de um macaco no momento em que ele comanda seu braço para pegar um objeto). “A tempestade cerebral existe mesmo e o som é este”, explicou, enquanto aumentava o volume de um som de rádio AM fora de sintonia, registro sonoro do ruído produzido pelos neurônios do macaco durante o gesto. “Tudo que definimos como natureza humana se resume a tempestades como esta – gestos, emoções, angústias, ideias, medos, vontades, tudo se traduz num som como este. E este é o som de apenas cem neurônios.” As experiências com macacos em Durham, na Carolina do Norte, sede da Universidade Duke, permitiram que um deles movimentasse um robô em Kyoto, no Japão. Surpresa: o exoesqueleto moveu-se 20 milissegundos mais rápido do que o macaco cujo cérebro gerou o movimento. “Imaginem um mundo em que a atividade do cérebro possa agir em todo o universo, controlado por nossa consciência e recebendo sensações de volta”, disse Nicolelis. De fato, uma das experiências com os macacos consiste em fazê-los mover um braço virtual numa tela de computador. Esse braço deve tocar três círculos idênticos, mas de textura diferente, não visível. Mas a mão virtual “sente” a diferença e envia um sinal ao cérebro do macaco que, então, com essa informação, escolhe o círculo certo e ganha o seu prêmio – suco de laranja. A idéia do exoesqueleto a ser “inaugurado” no Brasil em 2014 resulta desse tipo de experiência e leva em consideração o fato de que “o cérebro de um paralítico continua a imaginar ações que seu corpo já não pode executar”. Seriam estas as demonstrações científicas da validade de propostas como a do futurista estadunidense Raymond Kurtzweil e seus célebres livros The Age of Intelligent Machines (1990) e The Age of Spiritual Machines (1998)? Absolutamente não. “Essas ideias, que se tornam cada vez mais populares nos Estados Unidos, não são científicas”, garante Nicolelis. “É absolutamente impossível computar emoções humanas, por exemplo, e não há o menor risco de que um computador baseado na máquina de Turing – como todos os que existem hoje – venha a superar a inteligência humana. É apenas uma visão ideológica, não científica.” A vã filosofia Sob o tema “o humano além do humano”, esta última mesa do dia foi mediada pela jornalista Laura Greenhalgh, editora de Cultura do jornal O Estado de S. Paulo, e tinha como contraponto a Nicolelis o filósofo da religião Luiz Felipe Pondé, colunista daFolha de S. Paulo. Pondé iniciou suas considerações com uma descrição detalhada do último filme de Lars von Trier, Melancolia, seguida por algumas ideias sobre como se cruzam os caminhos da ciência e da religião. “Se Deus fracassa, a ciência resolve”, explicou, em um dos múltiplos aforismos com que brindou a plateia. Citou Platão e sua república utópica, Chesterton e suas advertências aos ateus, Nietzsche e seu niilismo, Dostoiévski e Prometeu. Espargiu metodicamente as frases com que seduz seus leitores na Folha – “o ser humano mata porque gosta”, “o que torna humano o ser humano é seu sofrimento”, “cérebros podem ser enormes máquinas de produção de uma certeza monstruosa” – e acabou por épater les bourgeois com uma longa digressão sobre o valor da eugenia, que seria, a seu ver, “parte integral da matriz científica ocidental”. “Somos todos eugenistas, todos queremos um ser humano melhor, mais saudável, mais bonito, mais inteligente e que sofra menos”, ponderou. Numa reflexão mais próxima das questões em debate no palco, parece ter sugerido que o exposto por Nicolelis dava-lhe a ideia de “uma nave espacial na velocidade da luz, desembestada em direção ao vazio do universo”, embora se tenha apressado a esclarecer que “isso não significa que ela deva parar”. Por fim, disse que “o que humaniza o ser humano é o fracasso”, provavelmente sem se dar conta de que a assertiva reduziria Nicolelis à categoria de um ser humano desumano. Este, que ouviu pacientemente as ponderações do filósofo, reservou para o final um discreto e pungente comentário. Em resposta ao pedido de um espectador para que descrevesse o projeto educacional em curso no IINN, em Natal, explicou que ali há comunicação entre neurocientistas, que estudam o cérebro, e pedagogos, que pretendem ensinar novas coisas ao cérebro. “É o casamento, agora legalizado pelo Supremo, entre Paulo Freire e Santos Dumont”, brincou. Afinal, o cérebro de nossas crianças é bem diferente do nosso, explicou. “As novas gerações são mais proficientes que as anteriores e a escola não se adaptou. Se os pais de Santos Dumont insistissem no seu sucesso escolar e menosprezassem seu interesse por voar, ele desistiria e acabaria em alguma faculdade de filosofia...”

Hélio Consolaro é jornalista e escritor, membro da UBE, Núcleo Araçatuba e região.